Vislumbre
Tiago Cherbo
Nos últimos meses a aparente e ilusória tranquilidade no processo de luta de classes e combate ao imperialismo existente na América Latina foi sacudido por um evento de proporção grandiosa, ou seja, a tentativa de golpe de estado desencadeado contra o povo hondurenho. Já digo em primeiro momento que falo em uma tentativa, pois acredito firmemente na luta do corajoso e honrado povo hondurenho que certamente derrotará os execráveis generais que tomaram o poder no seu país. A conjuntura de tal golpe no país relembra muito os da operação Condor que sacudiu a América do Sul nas décadas de 60 e 70 do século passado. Manuel Zelaya presidente eleito democraticamente e que se havia comprometido e começado uma série de reformas sociais dentro da sociedade hondurenha que há séculos é refém de um capitalismo perverso e opressor patrocinado por elites locais e internacionais é sequestrado em sua própria casa por forças de segurança e levado de pijamas para Costa Rica. O exército toma as ruas e reprime violentamente as manifestações populares contra o golpe. Em 24 horas é instituída a censura e o toque de recolher em todo território nacional. Interessante fato dessa tragédia é que o Gen. Romeo Orlando Vásquez Velásquez que derrubou o presidente Manuel Zelaya em um golpe de Estado antes do amanhecer no domingo, 28 de junho, cercando o palácio presidencial com mais de 200 soldados e tanques e usando gás de pimenta contra a multidão do lado de fora foi um dos alunos mais brilhantes da famigerada Escola das Américas do Exército dos EUA. A análise é de Linda Cooper e James Hodge, autores de "Disturbing the Peace: The Story of Father Roy Bourgeois and the Movement to Close the School of the Américas" [Perturbando a paz: A história do Pe. Roy Bourgeois e o movimento para fechar a Escola das Américas, em tradução livre]. O texto foi publicado no sítio National Catholic Reporter, 29-06-2009. Segundo os autores, Romeo obteve duas graduações em tal instituição militar tendo obtido desempenho excelente segundo consta em seu histórico. Outro ponto-chave nesse processo é a base americana em solo hondurenho em Soto Cano, também conhecida como Palmerola. Zelaya procurou converter Palmerol a partir de 2008, quando o unico aeroporto internacional civil de Honduras foi fechado por questões de segurança, num aeroporto civil mas os seus planos atrasaram-se quando o governo não conseguiu atrair investidores internacionais. Finalmente em 2009 Zelaya anunciou que as forças armadas hondurenhas realizariam a construção. Para pagar o novo projecto o presidente utilizaria fundos provenientes da ALBA [Alternativa Bolivariana para as Américas] e do Petrocaribe, dois acordos comerciais recíprocos impulsionados pelo líder venezuelano Hugo Chávez. Previsivelmente a direita hondurenha saltou em cima de Zelaya por este usar fundos venezuelanos e o embaixador americano em Honduras por diversas vezes fez inúmeras e fortes críticas ao presidente. Por fim, temos o fato que ocorreu na quinta 25 de junho há três dias do golpe. Zelaya entrou forçadamente com dezenas de pessoas em uma base militar para levar material que seria usado na consulta popular sobre a mudança da constituição que ocorreria no domingo. Tomou essa atitude depois que o Gen. Vásquez negou-se a distribuir o material para a consulta. Sendo assim, o general foi destituído de seu posto de comandante na quinta-feira pelo presidente da república eleito pelo povo hondurenho em eleições livres e universais. Contudo no domingo o mesmo general aplica um golpe tentando colocar a sociedade de Honduras de joelhos novamente em relação aos interesses das elites locais e do império estadunidense.
Diante de todo esse contexto, para disfarçar toda essa relação entre o golpe e o Governo do Estados Unidos é montada todo um teatro onde o "bom menino" Obama vem a público condenar os eventos que aconteceram em Honduras. Contudo, diferentemente da Espanha o Governo de Obama não cortou a ajuda financeira ao governo golpista. No útimo dia 20 de julho a máscara finalmente caiu quando a diplomacia norte americana declarou que não considera o que se passou em Honduras como um golpe de Estado. Foi o que disse o porta-voz do Departamento de Estado, Phillip Crowley, numa conferência de imprensa em Washington. Um jornalista perguntou se o governo norteamericano considerava os acontecimentos em Honduras como um “golpe de Estado”, ao que o porta-voz respondeu com rotundo “Não”. Durante a mesma conferência de imprensa do dia 20 de julho, o porta voz Phillip Crowley disse ainda algo mais revelador sobre a posição de Washington diante dos fatos ocorridos em Honduras. Perguntado sobre a ligação entre Honduras e Venezuela ele disse o seguinte: "Acreditamos que se tivéssemos que eleger um modelo de governo e um líder na região para que os demais países o seguissem, a atual liderança da Venezuela não seria o modelo indicado. Se esta é a lição que o presidente Zelaya aprendeu com esse episódio, então terá sido uma boa lição." Um jornalista insistiu no assunto e perguntou ao porta voz do Departamento de Estado: “Quando disse que o governo venezuelano não deve servir de exemplo de governo para outros líderes...” Cinicamente Crowley interrompeu o resto da pergunta e acrescentou: “Creio que me expressei com muita clareza...”
Além desse evento que nos assolou a todos um outro acontecimento dessa vez localizado mais ao sul trouxe um possível retrato dos tempos que se aproximam e de como a nova administração de Washington reafirma que a batalha entre a paz e a guerra continua e que a luta pela libertação dos povos latino americanos da brutal mão do império está apenas começando. O governo equatoriano que suporta um enclave imperialista estadunidense em seu território (base militar de Manta) devido a um acordo realizado em 1999 com duração de 10 anos este ano decidiu não renovar o acordo com os Estados Unidos. Rafael Correa mostrou, assim, que realmente constitui uma administração que defende a independência do povo equatoriano e que entende a malignas influências que o imperialismo Yanke traz para a região. Sobretudo afina o discurso com Venezuela e Bolívia mostrando que a tão sonhada aliança dos países latino americanos sonhada desde os tempos do grande Bolívar está em um ciclo novo e promissor. Desse modo, a perda de um posto militar avançado em uma importante região na America do Sul foi um golpe na estratégia geopolítica do governo de Washington. A solução não demorou para ser encontrada, entretanto, estava somente a algumas centenas de quilômentros utrapassando a fronteira Equatoriana e se alojando no maior aliado militar atual no Estados Unidos na região, isto é, a Colômbia.
Diante desse quadro, o governo Obama não irá realizar uma mera transferência de logística para continuar de forma muito solidária o controle do narcotráfico. Implantará na Colômbia um centro de operações que tem como objetivo ser um posto militar avançado que se encaixa perfeitamente em toda estratégia de guerra moderna dos Estados Unidos. Serão 7 bases que contarão com 1400 agentes estadunidenses, aviões, armamentos, estrutura de informação e, principalmente se instalaram em pontos chaves do território colombiano permitindo o monitoramento e controle de toda a américa caribenha e sul américa. Dados que vieram a tona em documento da Força Aérea americana e que foram publicados na sexta-feira 7 de agosto na Folha de São Paulo mostram que os aviões que serão utilizados na base de Palanquero, no centro da Colômbia tem um raio de ação muito maior do que o necessário para combater o narcotráfico.
Diante de todas essas considerações, fica claro que o governo Obama não será um governo mais democrático e libertário com o mundo como sonhavam alguns. Pelo contrário, a luta dos povos pela sua emancipação e liberdade caminha para um novo momento histórico de ascenso depois de um tempo de refluxo. A crise estrutural que o capitalismo enfrenta só contribuiu para evidenciar ainda mais a luta de classes no seio de nossa sociedade e despertar as massas para a necessidade da luta. Os lucros são privatizados, mas os prejuízos são coletivizados. O trabalhador aprendeu isso na prática nos últimos meses no Brasil e no mundo enfrentando demissões, corte de salários e, além disso, observando os estados nacionais oferecendo centenas de bilhões aos meios privados para impedir sua falência completa. Na América Latina a ALBA surge comouma nova proposta de enfrentamento do imperialismo e da exploração selvagem do capital sobre o homem. Se coloca na defesa de um plano destinado a garantir a mais benéfica complementação produtiva alicerçada na racionalidade, o aproveitamento mútuo de vantagens em todos os países, a economia de recursos, a ampliação do emprego útil, o acesso aos mercados e outras considerações sustentadas numa verdadeira solidariedade que potencializa as forças de todos os países ao atuarem conjuntamente pelos interesses de seu povo e da humanidade.
Analisando a situação brasileira diante desse quadro, pode-se afirmar que o governo Lula conseguiu implementar importantes passos e sem dúvida coloca-se na história como um governo comprometido com o país. Todavia, o momento histórico é propício a alteração da correlação de forças e a implementação de mudanças mais profundas na sociedade. As conjunturas nacional, regional e internacional passam por um processo de construção que tende a garantir as possibilidades reais para uma grande transformação. O ano de 2010 é fundamental para esse processo na América Latina e no Brasil. A disputa eleitoral no Brasil irá nos fornecer um quadro de um governo neoliberal dirigido pelo PSDB ou de um governo que continuará com o processo de pequenas reformas na sociedade dirigido pelo PT. As duas conjuturas são propícias para a organização do trabalhadores e da sociedade na luta pelo socialismo. A primeira porque insistirá em um modelo econômico e de desenvolvimento que tornou-se ultrapassado mostrando na prática suas limitações e que na atual conjuntura mundial só servirá para acirrar ainda mais a luta de classes. A segunda porque parte da esquerda que ainda se mantém socialista nesse país teve oito anos para evidenciar na prática que a revolução dita democrática não é mais aplicável no Brasil por este se tratar de uma nação onde impera um capitalismo pleno que faz parte das engrenagens do capitalismo imperialista mundial e, sendo assim, "uma vez constatado que o capitalismo no Brasil já atingiu a etapa monopolista, fica claro que o processo revolucionário brasileiro é de caráter socialista." Um possível governo Dilma só servirá para acabar de uma vez por todas com qualquer esperança de uma possível reorientação do PT para um projeto socialista para o Brasil e formará as bases para a construção do bloco histórico de luta pelo socialismo. Esse processo é fundamental também para a América Latina, pois a capacidade do movimento socialista e comunista brasileiro de organização da classe trabalhadora e dos demais segmentos combativos da sociedade em prol de uma nova realidade para o país irá junto com a ALBA instituir uma aliança entre nossos povos que talvez nunca antes na história tenha tido uma possibilidade de vitória tão real. Para isso a organização e o comprometimento com a luta revolucionária são fundamentais, pois o imperialismo já começa sua movimentação de defesa do "status quo". O combate nos próximos anos irá avançar e se travará nos mais diferentes campos da informação, da guerra e da ideologia. Não há tempo para vacilos e dúvidas a história nos cobrará por nossa vitória ou por nossa derrota. A unidade é fundamental nesse momento. Como disse Che certa vez: " Só existe uma maneira de sair de uma revolução verdadeira: vitorioso ou morto."
